Somos a favor que o mercado esteja a “inovar” nas categorias das bicicletas, diga-se desde já. Assim, consequentemente, há também cada vez mais modelos, sendo que isto se traduz em mais opções para cada ciclista. Falamos, claro, do BTT, pois é nesta vertente que mais têm surgido novidades a este nível, como vemos mais à frente neste artigo.

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Olhando para as novidades que pouco a pouco vão chegando aos catálogos das marcas, damos conta que os slogans e as ideias mais fortes entre gamas e modelos começam a repetir-se e a sobrepor-se… Algo como “esta bicicleta de XC pode competir com uma de enduro”, ou “esta enduro sobe tão bem como uma de XC”…

A versatilidade que se tenta obter é tão intensa que alguns modelos se sobrepõem, efetetivamente. Ou será apenas impressão nossa? Teoricamente, isto é bom, pois quantas mais opções de escolha de quadros, melhor.

No entanto, por vezes ficamos um pouco confusos com modelos tão parecidos, existindo o risco de o utilizador acabar por escolher a bicicleta errada. Até dentro do mesmo modelo são oferecidas diferentes combinações de rodas, com diferentes comportamentos, por exemplo.

Além disso, tal dispersão de modelos obriga a que os fabricantes de componentes tenham um stock de produtos altíssimo, o que às vezes é difícil de manter, como vemos com o que está a acontecer hoje em dia. Assim, a disponibilidade de bicicleta diminui…

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Mas estas são “questões maiores” e que nos escapam. O que interessa é que já a seguir tentamos explicar toda esta questão de uma forma bastante prática e com recurso a algumas comparações entre bicicletas. Na nossa humilde opinião, nestes casos pode estar a ocorrer a tal “canibalização” que referimos no título deste artigo.

Trail – All-mountain – Enduro

Estas três categorias distinguem-se atualmente por muito pouco, em nosso entender. Quase tão mínimas que a nível de utilização será difícil diferenciar que vertente se adequa mais ao que fazemos com a bicicleta. A menos que as tuas voltas sejam de XC “puro e duro”, terás alguma dificuldade em perceber atualmente que categoria de bicicleta é melhor para o que fazes.

Podemos dar um exemplo com base nas novas Mondraker que experimentámos em Alicante recentemente:

Mondraker Raze Carbon vs Foxy Carbon (trail vs all-mountain / enduro)

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A Raze é a novidade trail mais emblemática da marca e surge a um nível quase equivalente face não só à Foxy Carbon com também face aos quadros de down country da Mondraker. A ideia é fantástica, concordamos a 100%! Mas qual é assim o quadro mais adequado para cada rider?

Mondraker Raze Carbon

É que as diferenças são mínimas, como podes ver já a seguir por alguns pormenores da geometria e características de cada modelo. Dica: experimenta qualquer bicicleta antes da compra, se possível. Isto porque, nos tempos que correm, há geometrias que nos surpreendem pela positiva e que podem revolucionar a forma como andamos de bike…

Mondraker Raze Carbon (no tamanho M)

Quadro: Stealth Carbon com sistema de suspensão Zero / Curso de suspensão: 150 mm (à frente) e 130 mm (atrás) / Ângulo de direção: 65,5º / Ângulo do tubo de selim: 76,5º / Distância entre eixos: 1.217 mm / Escoras: 435 mm / Reach: 475 mm / Altura do eixo pedaleiro: 337 mm

Mondraker Foxy Carbon

Mondraker Foxy Carbon (no tamanho M)

Quadro: Stealth Carbon com sistema de suspensão Zero / Curso de suspensão: 170 mm (à frente) e 150 mm (atrás) /Ângulo de direção: 64,5º / Ângulo do tubo de selim: 75,5º / Distância entre eixos: 1.231 mm / Escoras: 435 mm / Reach: 465 mm / Altura do eixo pedaleiro: 354 mm

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Cross Country – Down Country

Nesta comparação as diferenças são mínimas, algo lógico em quadros que, por norma, partem da mesma base. Até porque, como já por aqui tivemos oportunidade de referir, as down country acabam por ser umas cross country (XC) “vitaminadas”. A abordagem é boa, tentando abranger desta forma um grande número de utilizadores. Mas, quando as bikes diferem muito pouco entre si, a dúvida surge.

Obviamente, para o BTTista que quer um quadro para competir, a dúvida não existe: terá de escolher XC pura. Trazemos apenas um dos muitos exemplos que podes encontrar atualmente nas lojas: as Scott Spark.

Scott Spark RC vs Spark

A primeira, a Spark RC, é a mais talhada para a competição, não fosse ela a escolhida por Nino Schurter (na versão mais bem equipada e exclusiva, claro). A segunda, a Spark “apenas”, é uma versão mais down country, passamos a expressão. Ou mais trail, como a própria marca a cataloga. Mas serão as diferenças consideráveis?

Scott Spark RC

Há um cm a mais na suspensão frontal na versão down country. E pouco mais é diferente na geometria. Em breve teremos oportunidade de experimentar o modelo 2022, muito famoso pelo sistema de amortecedor traseiro integrado no quadro e poderemos tirar conclusões.

Mas temos andado com uma RC de 2021 e é um facto que a bike apresenta características muito mais talhadas para descer e para um uso mais trail e menos XC… É uma questão de mindset e de treino, quase, sendo que ambos os modelos respondem bem aos dois tipos de uso. Vejamos as diferenças:

Scott Spark RC (no tamanho M)

Cursos de suspensão: 120 mm (à frente e atrás) / Ângulo de direção: 67,2º / Ângulo do tubo do selim: 76,1º / Distância entre eixos: 1.159 mm / Escoras: 437,5 mm / Reach: 441 mm / Stack: 602,5 mm / Altura do eixo pedaleiro: 330 mm

Scott Spark

Scott Spark (no tamanho M)

Cursos de suspensão: 130 mm (à frente) e 120 mm (atrás) / Ângulo de direção: 65,8º / Ângulo do tubo do selim: 75,9º / Distância entre eixos: 1.174 mm / Escoras: 437,5 mm / Reach: 440 mm / Stack (altura): 607,5 mm / Altura do eixo pedaleiro: 331,5 mm

Diferentes combinações de rodas no enduro

Compliquemos ainda mais olhando para as diferenças nos diâmetros de roda dentro de algumas gamas, com especial atenção nos modelos de enduro. As versões Mullet são já uma realidade no catálogo de várias marcas e há mesmo as que disponibilizam as três opções distintas: ou seja, roda 27,5” atrás e 29” à frente; ambas as rodas de 29”; ou ambas as rodas de 27,5”.

A Orbea já introduziu opções deste género na sua mais recente versão da Rallon, sendo que a Canyon Spectral 2022 chega mesmo a disponibilizar as três combinações de tamanho de toda.

Canyon Spectral com rodas Mullet

A ideia é genial, mas pode trazer um problema ao utilizador: que versão escolher caso não tenha experimentado ainda? Mais uma vez achamos que tal é fundamental, apesar de sabermos que nem sempre é possível. É importante tentar aproveitar todos os momentos em que as lojas e marcas permitem a experiência.

Canyon Spectral com rodas de 27,5”, 29” ou Mullet

Como já referimos, a nova Canyon Spectral, muito talhada para o enduro e que tivemos o prazer de testar recentemente, surpreende na sua versão Mullet. Mas talvez surpreenda ainda mais por “resgatar” uma versão com ambas as rodas de 27,5”.

Spectral com rodas de 29”

Este plano da Canyon é quase perfeito: assim, há uma versão com o comportamento desejados por parte todos os riders. Sem experimentar, contudo, a escolha poderá ter como base apenas as diferenças entre as opções disponíveis, o que pode não ser suficiente…

Diferenças de geometria entre as três versões (no tamanho M)

Em comum entre as três combinações:

Corridas de suspensão: 160 mm (à frente) e 150 mm (atrás) /Ângulo de direção: 64º / Ângulo do tubo do selim: 76º

Diferenças entre as três combinações:

Distância entre eixos: 1.222 mm (29”) – 1.221 mm (Mullet) – 1.197 mm (27,5”) / Escoras: 437 mm – 432 mm (Mullet) – 432 mm (27,5”)  / Reach: 460 mm (29”) – 456 mm (Mullet) – 435 mm (27,5”) / Stack: 758 mm (29”) – 763 mm (Mullet) – 751 mm (27,5”)

As nossas conclusões!

Viva a diversidade! É isto que mais nos apetece dizer… Apesar de admitirmos que tantas opções podem confundir os ciclistas menos experientes, a verdade é que quando começamos a pedalar com cada modelo estas parecenças desfazem-se ligeiramente…

Isto porque as diferenças talvez não sejam assim tão grandes. São cursos de suspensão que diferem em muito pouco, geometrias com poucos graus de discrepância nos ângulos ou mm nas suas dimensões, equipamentos de gama alta que passam para a gama média.

Tanto uma XC como uma enduro podem hoje em dia ter espigões de selim telescópicos, guiadores extra largos, rodas largas… Assim, os comportamentos das bicicletas são muito parecidos.

A “difícil” decisão, como sempre, será tua. Do nosso lado, o melhor conselho que te podemos dar é que experimentes a bike antes de escolheres. E já sabes que praticamente todas as marcas e lojas, hoje em dia, permitem fazê-lo. Aproveita!

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